Por Adalberto Ricardo Pessoa
Todos os livros que tratam da história do Tarô destacam o caráter
obscuro, vago e controverso de suas origens. Os documentos históricos concretos
reportam as origens do Tarô à segunda metade do século XIV, quando teriam sido
desenhados ou pintados na Itália, no período renascentista. São referenciados
dois baralhos: (1) o Baralho de Carlos VI e (2) o Baralho de Visconti – Sforza
(Sharman-Burke & Greene, 1988), entre outros.
Das primeiras cartas de tarô conhecidas e ainda mais antigas – que são,
supostamente, as de Jacquemin Gringoneur – existem apenas dezessete conservadas na
Biblioteca Nacional de Paris. Datam de 1392 e foram pintadas pelo artista para
a Coroa Francesa. Mesmo os historiadores mais conservadores desconfiam, porém,
que as cartas de tarô apareceram bem antes dessa data, porque elas eram
proibidas em Florença, Itália, em 1376, pela Igreja Oficial, que as queimou em Praça Pública ,
depois de condená-las.
O Visconti-Sforza é o baralho completo mais antigo que permaneceu
intacto; essas cartas foram pintadas por um artista italiano, Bonifácio Bempo,
e autorizado pelo duque de Milão a levarem o nome de sua família. Essas cartas
elegantes, algumas das quais podem ser vistas na Biblioteca Pierpont Morgan em
Nova Iorque, são pintadas e iluminadas em cores brilhantes sobre um fundo de
losangos de ouro sobre vermelho com toques de prata (Nichols, 2007). Há um
trabalho moderno (ver imagem abaixo, da carta clássica do Louco no baralho de Visconti-Sforza) de um artista plástico russo chamado A. A. Atanassov, que recuperou
produções dessas cartas, em ouro texturizado, disponíveis para comercialização.
Essas cartas são produzidas na Itália e estão disponíveis para importação,
sendo normalmente compradas por colecionadores de cartas de Tarô, por valores
acessíveis.
No âmbito especulativo (para além das provas documentais) a presença de
figuras como O Sacerdote ou O Papa e a estética medieval de várias das cartas
clássicas ou tradicionais, levou alguns doutos a acreditarem que o tarô seria
um oráculo originado na Idade Média Européia. Porém, para os tarólogos
ocultistas, o verniz medieval da arte não consegue camuflar com tanta
facilidade o fato, de que algumas das imagens não se coadunam com esse simples
contexto. Cartas como a Imperatriz e a Sacerdotisa fazem uma referência à Grande
Deusa-Mãe, estranha à cultura medieval, enquanto O Carro e a Roda da Fortuna
trazem referências artísticas típicas do Egito Antigo. Isso leva esses
tarólogos místicos a supor que as raízes do Tarô repousam num passado mais
distante, anterior às crenças cristãs transvestidas pelo Renascimento, indo em
direção a antigos ensinamentos esotéricos, xamânicos, de mitos pagãos,
cabalísticos e egípcios.
Autores mais ousados da tradição hermética saem dos séculos XIV e XV
para situarem os primeiros registros ocultos do Tarô por volta de 35 mil anos
atrás. Nessa linha encontram-se aqueles que situam a
origem do Tarô, primeiro no Antigo Egito, para depois sugerirem que esses
símbolos retratam as concepções espirituais de iniciados derivados de um
passado ainda mais remoto (da Atlântida e de Mu). Essa versão não é apoiada
pelos registros históricos oficiais, e é vista como um exagero pelos tarólogos
que seguem escolas mais contemporâneas que abordam o tarô por seus aspectos simbólicos
e históricos. Mas, não é, também uma impossibilidade.
A idéia de que o Tarô tenha a sua origem no Antigo Egito, embora não
tenha claro apoio documental (histórico), tem certo fundamento quando é feito
um estudo comparativo das cartas com temas de Alquimia antiga e Cabala –
revelando também alguma influência do povo hebreu, como apontou o filósofo e padre
da Igreja Romana, Eliphas Levi. Além disso, o Tarô parece ter relações com a
Antiga Arte da Astrologia, que também tem suas origens parcialmente ligadas à
cultura Egípcia. Mas, todo esse campo é especulativo e, categoricamente
criticado e rejeitado por alguns tarólogos modernos como Naiff (2012).
Voltando ao século XV, a partir dessa época em diante, surgem vários
baralhos, sendo o mais conhecido o de “Marselha”, editado modernamente em 1930
por Paul Marteam, com formato e cores mantidos até hoje.
Também no início do século XX, um grupo reconhecido de místicos
britânicos denominado The Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada)
realizou um trabalho comparativo das cartas de Tarô com outros sistemas
espiritualistas – como a Astrologia, Magia Ritual, a Cabala e a Alquimia – e
suas correspondências, e dois membros se destacaram: (1) o cabalista Arthur
Edward Waite (em conjunto com a artista Pamela Colman Smith) e seu rival
controverso e exótico, (2) o magista Aleister Crowley (em conjunto com a
artista Frieda Harris, que desenhou o
seu Tarô ocultista).
Pamela desenhou sob a orientação de Arthur o Tarô de Waite, um dos mais
ricamente simbólicos disponíveis no momento, onde são introduzidos (pela
primeira vez) personagens humanos nos 56 Arcanos Menores, o que enriquece seus
significados. Baseados neste baralho existem outros elaborados artisticamente,
que dão novas interpretações para os arcanos menores, mantendo a simbologia dos
maiores. Assim, podemos dizer que Waite fez a sua escola. Pamela Colman foi,
historicamente, a primeira mulher a desenhar cartas de tarô, no ano de 1910, em
Londres, e isso representou um avanço formidável (Kaplan, 1972, p. 65). Para a
época Waite foi revolucionário e mudou radicalmente o conceito de tarô ao
desenhar seu próprio baralho (abaixo a carta do Louco no baralho de Waite, com suas diferenças do baralho clássico de Marselha e de Visconti-Sforza).
Porém se Waite foi revolucionário, Crowley foi quase surrealista... Na
perspectiva do pesquisador e tarólogo Robert Wang, Crowley foi um típico
representante da estética “avant garde”
no início do século XX, que pregou que o novo e o chocante era, por definição,
melhor que o antigo (Wang, 1983, p. 16). Essa idéia constituiu a base de toda a
arte, música e literatura moderna, além dos padrões de comportamento da elite
artística de Londres, Paris e Nova York das décadas de 20 e 30. E a arte do
Tarô de Crowley se enquadra nessa filosofia, pois suas cartas foram elaboradas
tendo como padrão o estilo Cubista, que foi o mais importante e avant garde de todos os estilos de arte
moderna durante o seu apogeu no início do século XX até a década de trinta.
Assim há uma diferença conceitual entre o baralho de Crowley e os
anteriores, mais clássicos e mesmos mais modernos como o de Waite. A Ordem
Dourada (1888-1900) foi criada numa filosofia que reverenciava uma idéia de
acordo com a sua antiguidade, e assim seus líderes compreendiam que a história
da Ordem remontava a um passado distante, recorrendo então, à estrutura
ideológica dos deuses do Egito para firmarem a sua posição. Mesmo o aspecto
revolucionário de Waite, se limitava a esse formato. Crowley, por sua vez,
dizia que uma Nova Era havia chegado e ele se intitulava o profeta desses novos
tempos. Seu tarô foi projetado para o que chamamos de A Era de Aquário, e ele
rompe com os tarôs classicistas, com mais audácia do que Waite (abaixo o Louco de Crowley, em estilo cubista, rompendo com os tarôs clássicos, como o de Visconti-Sforza, e mesmo com um tarô mais moderno como o de Waite).
Para quem enfatiza o caráter artístico do Tarô, há a possibilidade de
se tornar colecionador havendo no mercado diversas representações belas e
inspiradoras, muitas produzidas por artistas plásticos.
Há além do clássico de Marselha e o de Waite (baralho “Rider-Waite Tarô
Deck”), os Tarôs Temáticos, como o tarô Bíblico, Cósmico, Namour, Divinatório,
do Amor, Mitológico, entre tantos outros.
O tarô mitológico foi criado pela psicóloga e astróloga inglesa Liz
Greene, em parceria com Juliet Sharman – Burke, e baseia-se numa moderna
leitura arquetípica dos mitos gregos, tendo como pano-de-fundo, a teoria
psicológica de Carl Gustav Jung empregada na sua interpretação, compreensão e
aprofundamento. Esse trabalho recente, de 1988, quase revolucionário e bastante
popularizado, destaca-se por ter conseguido aproximar a linguagem fascinante do
Tarô aos conceitos da Psicologia Moderna do Inconsciente. É um marco da escola
simbolista de Tarô, através do uso de um tarô transcultural (abaixo, o Louco no tarô psicológico e mitológico de Sharman-Burke).
Essa aproximação entre tarô, mitologia, arquétipos, inconsciente e
psicologia tem inspirado profissionais de vanguarda a praticarem o que tem sido
denominado Tarô Terapêutico, uma proposta bem recente de uso alternativo do
tarô, que vai além do seu uso conhecido como oracular ou divinatório. Por ser
uma proposta tão nova, ainda não foi assimilada pelo público em geral. Essa
forma moderna que combina oráculo e terapia tem sido pesquisada pelo tarólogo
Veet Pramad (Pramad, 2008), e já existem desdobramentos dessa técnica entre
tarólogos contemporâneos que estão contribuindo para a construção histórica e
amadurecimento profissional da tarologia atual. Sobre esse ponto, pretendo
voltar em outro texto.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
NAIFF, Nei. Tarô – simbologia e ocultismo: estudos
completos do tarô – volume 1. Rio de Janeiro: Nova Era, 2012.
PRAMAD, Veet. Curso de Tarô e seu uso terapêutico.
3ª Ed. São Paulo: Madras, 2008.
NICHOLS,
Sallie. Jung e o Tarô: Uma jornada
arquetípica. São Paulo: Cultrix, 2007.
SHARMAN-BURKE, Juliet; GREENE, Liz. O Tarô Mitológico – Uma nova abordagem
para a leitura do Tarô. São Paulo: Siciliano, 1988.
WANG, Robert. O Tarô Cabalístico. São Paulo:
Pensamento, 1983.
KAPLAN, Stuart R. Tarô Clássico. São Paulo:
Pensamento, 1972
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